Prólogo
Escuridão no horizonte
Fazia dez anos que Sophie não arrumava sua cama. Dez anos dormindo no sofá da sala. Dez anos mantendo uma esperança que acordaria com a porta da sala a se abrir.
E como acontecia todas as noites durante aqueles dez anos, foi novamente levada em sonho de volta aos seus sete anos de idade.
Naquele sonho, a garotinha Sophie mantinha o olhar fixo no horizonte, em um estado de tédio incomum a crianças daquela idade, ainda que a brisa outonal de que tanto gostava, acariciasse levemente seu rosto.
Durante a manhã ela ficava mais animada, quando junto de sua mãe, cuidava do jardim na frente de sua casa, um tesouro compartilhado entre elas. Sophie cavava buracos para novos plantios, buscava ferramentas para a mãe e ao final da atividade, as duas eram obrigadas a trocar as roupas, pois a garotinha adorava brincar de tomar banho com a mangueira de jardim.
Tal qual a mãe, adorava aquele mar colorido de pétalas. Era como estar no paraíso.
Logo após o almoço, Sophie subia para seu quarto e se afundava naquele estado melancólico, suspeitando que os ponteiros do relógio deviam trabalhar com sono, de tão lentamente que o tempo passava.
Quando uma revoada de gaivotas cruzou o céu, sua atenção foi captada por um breve momento.
“Como será o mundo lá fora?”
O pensamento lhe ocorreu, vendo os animais desaparecerem ao longe. Em certos momentos, se imaginava como um deles, voando distante, desbravando o que Luamar escondia além-mar, um desejo que sempre tivera.
Um antigo relógio de pêndulo na sala a libertou do devaneio e instantes depois, viu uma silhueta surgir no horizonte, a mesma que aparecia todos os dias pontualmente.
Sophie saltou do parapeito e se atirou para fora do quarto. Desceu as escadas o mais rápido que suas pernas permitiram, derrapando, logo após os degraus, no chão de taco recém-encerado.
— Cuidado, Sophie, você ainda vai se machucar feio!
Sua mãe a repreendeu da cozinha, mesmo sabendo que era inútil. Todo dia acontecia exatamente a mesma coisa.
E como todo dia, Sophie ignorou o aviso e terminou a corrida pulando na mesa de centro da sala, de frente para a porta, a ansiedade explodindo.
Quando finalmente a porta se abriu, extravasou a euforia.
— Papai! Você chegou, papai!
O homem recém-chegado respondeu com um largo sorriso. Dessa vez, ele quem reencontrara seu tesouro. Agarrou a filha pela cintura e ergueu acima de sua cabeça, rodopiando mesmo sem música, em uma valsa desengonçada.
Sophie estava no céu, no clímax mágico após tanta espera. Os braços do pai eram o melhor lugar em que poderia estar.
— Cheguei, minha estrelinha. Papai sentiu saudades. — Declarou, levando a garota no colo até a cozinha, indo ao encontro de sua esposa. — Estou de volta, meu amor!
— Bem-vindo de volta, querido. — Devolveu a mulher, juntamente com um beijo.
O pai deixou a pequena Sophie em uma cadeira junto à mesa de jantar, onde biscoitos já a aguardavam, acompanhados de um copo de leite.
— Mamãe preparou biscoitinhos de nata, papai, meus favoritos!
— Eu sei, filinha. Sua mãe é incrível.
Sophie esticou a mão, mas antes que conseguisse alcançar a primeira bolacha, seus braços fraquejaram. Uma forte dor de cabeça a atingiu subitamente e um ruído estridente invadiu seus ouvidos.
O mundo tremeu, seus olhos desfocaram, a boca secou. O antigo relógio soava incontáveis batidas, marteladas contra a garota.
Apertou as mãos contra os ouvidos, em uma tentativa desesperada de se livrar do barulho, que em desafio, cresceu ainda mais, a ponto de tornar-se ensurdecedor. O mundo se enegreceu. Seu corpo cedeu diante do ataque aterrador.
Um trovão a salvou da tormenta.
A pequena Sophie abriu os olhos e se viu ainda sentada à mesa.
Os biscoitos desapareceram, dando lugar a um lampião a óleo. As paredes pareciam alguns meses mais velha.
Somente o tremular daquela pequena chama iluminava a cozinha. Do lado de fora o vento uivava, e os galhos das árvores martelavam em um ritmo constante contra as paredes, motivados pelas fortes rajadas de vento.
Uma frase ecoava pelos pensamentos de Sophie, dita algumas horas mais cedo.
— Filha, nós logo retornaremos. Eu e sua mãe temos... — hesitou brevemente — algo a fazer, mas logo retornaremos.
Mais um raio iluminou a noite. Mais batidas soaram.
A cozinha se ampliou, tornando-se ainda mais fria. Sophie continuou sentada ali, afundada em solidão. O antigo relógio não descansava. Cada batida mais aterrorizante que a anterior.
Lágrimas fugiram dos olhos, quase invisíveis na penumbra. Em silêncio, baixou a testa na mesa, negando uma possibilidade de realidade que insistia em afligi-la. A realidade de que seus pais não retornariam, e que deste dia em diante, estaria sozinha.
Mais badaladas diluíram o tempo...
E Sophie se viu no sofá da sala, ainda sonhando, na realidade que se tornaram os dez anos que se passaram.
Mesmo durante o dia, estava por ali sempre que podia, desde aquele dia chuvoso, desde o deslizamento de terra que vitimou seus pais, agarrando-se a uma centelha de esperança. Esperança de que aquela porta se abriria e veria seus pais novamente. De que tudo o que tinha acontecido, fora apenas um sonho. Mas a porta nunca se abriu.
Como de costume, foi até o banheiro e banhou-se em água bem quente. O calor úmido a abraçava de maneira relaxante e aconchegante tornando sua mente um infinito ruído branco.
Vestiu-se, escovou os dentes e pegou os cabelos pela ponta, enrolando-os duas vezes na mão até deixar na altura dos ombros.
— Já é a quinta vez que decido cortar e desisto. Dessa vez vai! — Falou em voz alta, tentando encontrar a coragem que faltava.
Se aproximando do espelho, suas olheiras estavam mais escuras que o normal, o que evidenciava ainda mais suas cicatrizes: talhos irregulares, logo abaixo do olho, que desciam pelo pescoço, percorriam seu braço, até acabarem nas costas da mão direita, criando uma forma que lembrava redemoinho. Marcas de nascença.
Ainda enquanto se vestia, uma corrente de ar, gelada e cortante, invadiu o cômodo, eriçando todos os pelos de seu corpo.
— A escuridão mais uma vez se eleva no horizonte. Até quando você negará o seu chamado? — Sussurrou uma voz desconhecida carregada pelo vento. Um eco etéreo, quase sobrenatural, vindo de lugar nenhum.
O coração da garota quase explodiu. Os olhos estatelados procuraram a origem da voz, somente para nada encontrar.
— Quem está aí? — Gritou, recebendo silêncio em resposta. Denso e absoluto. Diante da tensão, o ar se negou a entrar em seus pulmões. O suor frio escorreu pela testa, os batimentos descompassados.
A passos apressados, voltou ao sofá e sentou-se agarrando as pernas, o ruído branco dando lugar a um turbilhão de pensamentos.
“Minha imaginação está me pregando uma peça. Tenho estado muito estressada ultimamente.”
Pensou a garota, ignorando aquela estranha voz.
Planejara por muitos anos seu futuro e sonhos e finalmente estava perto de dar o primeiro passo em direção a eles. Mas no seu íntimo, suspeitava que o que sentia agora não tinha nada a ver com isso.
Ela olhou para a porta da sala que pareceu crescer, se impor contra ela. Sentiu-se diminuída, encolhida contra a poltrona. Desejava sair dali, mas o corpo pesado e paralisado, não obedecia.
— Sempre à frente, enfrente. Sempre à frente, enfrente. — Sophie repetiu a frase em voz alta, como um mantra. Um ensinamento deixado por seu pai, para inspirar coragem diante de momentos difíceis.
Sempre funcionava. Com uma audácia inexplicável, Sophie saltou do sofá, caminhou até a porta a escancarou com um puxão da maçaneta.
O frescor do ar primaveril invadiu seus pulmões, carregando o aroma terroso do campo. A grama molhada do orvalho noturno acolheu seus pés descalços e os primeiros raios de sol da manhã aqueceram não só sua pele, mas também o coração.
“Eu definitivamente deveria ter feito isso antes.”
Pensou ela, diante da sensação de finalmente deixar de vez a casa de seus pais.
Sophie olhou para trás, e a casa havia desaparecido, restando apenas uma clareira ao seu redor, um santuário natural onde borboletas voavam, pássaros cantavam. E mais ao longe, uma floresta densa insistiu em atrair sua atenção, particularmente para uma trilha de terra batida que invadia o bosque.
Sentiu-se estranha mais uma vez. Um incômodo, como uma pontada no peito ao olhar para aquele lugar. Algo a compelia a seguir por aquele caminho e afastá-la da calmaria do santuário.
Uma força que não compreendia exigia que ela fosse até lá. Algo que ela simplesmente não podia ignorar, e então, assim o fez.
A estrada seguia pelo bosque morro acima, e Sophie, mesmo hesitante, prosseguiu. De perto, as gigantescas árvores a pressionavam impondo um desafio à sua incursão, mas firme, seguiu floresta adentro.
Em meio a galhos e raízes retorcidas, afundada na penumbra das copas das árvores, Sophie tinha certeza de que se perderia, não fosse por aquela estranha força, que a guiava como uma mestra.
Quando já começava a sentir os sinais do cansaço, finalmente viu um ponto iluminado, indicando a saída da mata, revelando um mirante de rochas vulcânicas irregulares.
Um raio cortou o céu, agora encoberto por nuvens escuras, como se anunciasse a chegada da garota.
— Que lugar é esse? — O pensamento escapou pelos lábios.
Caminhou até a borda do platô, descobrindo estar sobre um vale cercado de montanhas. E lá do alto, Sophie estacou.
No leito rochoso, cinco objetos estavam espalhados em arco. Relíquias que emitiam pulsos de energia para os céus, brilhante e poderosa.
Mas mesmo diante daquelas maravilhas, seu estômago se revirou. Sentiu seu coração acelerar e o suor frio percorrer-lhe a pele. Bem à frente dos objetos, um homem, coberto por um manto negro, flutuava poucos centímetros acima do chão. Algo maligno emanava dele, uma potência sombria e opressora, que a afetava mesmo àquela distância.
Era claro que ele buscava tomar aquelas relíquias para si e usurpar aquele poder, mas muito além disso, ela tinha certeza de que deveria impedi-lo, contudo, apenas a ideia de enfrentá-lo a deixava paralisada, dominada pelo medo.
Mesmo assim, sabia que deveria fazê-lo, custasse o que custasse. Sua sobrevivência dependia disso.
Com um grito grave e rouco, o homem liberou seu poder. A terra estremeceu, e ao seu comando o céu se partiu. A energia dos artefatos se torceu, resistindo à ordem, porém, um negrume esfumaçado emergiu por entre rachaduras no chão, tragando os objetos mágicos.
Diante daquele poder, Sophie nada fez. Nenhuma palavra ousou passar por sua garganta apertada. Cada músculo do seu corpo rijo como pedra.
— A escuridão vencerá. Até quando você negará o seu chamado?
Era a mesma voz de antes. E de novo um arrepio percorreu sua espinha. Sentiu então algo surgir em sua mão: o toque morno do metal de uma lâmina, uma espada cravejada de runas, emanando energia que agora também era sua.
A coragem cresceu, e com ela, sua força. Aquela voz fora o empurrão necessário para tirá-la da inércia.
— Pare já! — Sophie gritou com toda a autoridade que encontrou. Sua voz ecoou pelo vale e ela avançou por entre o rochedo, impulsionada pelo próprio clamor, descendo por entre as rochas afiadas.
O chamado captou a atenção do homem, que se virou para ela, só então notando sua presença e com um pensamento, seu corpo se transformou em fumaça e afundou no chão.
Uma onda de choque percorreu o vale, arremessando poeira e rochas para o alto. Um instante depois o homem surgiu do chão, saltando como uma fera sobre a garota, agarrando o pescoço de sua presa indefesa.
Sophie acordou em um salto do sofá, trêmula e com os batimentos cardíacos descompassados, a respiração ofegante.
Correu para a cozinha, buscando consolo em um copo de água gelada. Levou a mão ao pescoço, ainda sentindo a pressão daqueles dedos que a enforcaram.
Tudo aquilo: as lembranças de infância, a floresta e aquele maldito homem. Tudo não havia passado de um pesadelo.
“Pareceu tão real.”
Divagou, um pouco mais calma, de volta ao sofá. Não conseguiu adormecer novamente naquela noite. Uma frase ecoando em sua cabeça:
Até quando você negará seu chamado?

